
O economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, deve se reunir com o presidente Lula em Brasília nos próximos dias, segundo o jornal O Globo. O encontro chamou atenção porque Lara Resende defende uma proposta para derrubar a taxa básica de juros de forma rápida e anunciada com antecedência, na contramão da estratégia gradual adotada pelo Banco Central.
A proposta foi publicada em setembro, em um artigo chamado “Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”, e debatida no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI). Ela prevê que o Banco Central anuncie uma trajetória de queda da Selic até 7,5% ao ano em cerca de 12 meses. Depois disso, a taxa ficaria dentro de uma banda entre 3%, igual à meta de inflação, e 5,5%, o crescimento nominal que ele considera potencial para a economia.
Hoje a Selic está em 13,75% ao ano, depois de cinco cortes seguidos de 0,25 ponto. O último foi em 16 de setembro, e a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) está prevista para novembro.
O plano também cria um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, que definiria metas conjuntas para gastos públicos e juros num horizonte de quatro a cinco anos. O Banco Central continuaria conduzindo a política monetária, mas dentro dessas diretrizes. A proposta inclui ainda reorganizar as contas públicas, separando gastos de custeio e de investimento.
Por que isso importa: o argumento central inverte a explicação mais comum para os juros altos no Brasil. Em vez de os juros estarem altos porque o governo gasta demais, Lara Resende sustenta que os próprios juros são o principal motor do crescimento da dívida. Segundo os números que ele cita, o custo médio da dívida pública era de 12,68% ao ano em junho, sobre uma dívida bruta de R$ 10,9 trilhões. Reduzir esse custo para perto de 7,5% poderia economizar cerca de 4 pontos do PIB por ano, mas o próprio autor trata essa conta como projeção, condicionada à queda dos juros chegar de fato aos títulos públicos.
O principal risco reconhecido na proposta é o câmbio. Com juros menores, aplicar dinheiro em reais fica menos atraente, o que pode levar investidores a comprar dólares e tirar recursos do país. Um dólar mais caro encarece combustíveis e importados e pressiona a inflação. Para amortecer esse efeito, Lara Resende propõe usar as reservas internacionais, que passam de US$ 350 bilhões. No debate do CEBRI, participantes questionaram se essas reservas seriam suficientes diante de uma saída forte de capitais e se o anúncio de uma Selic tão mais baixa não provocaria reação imediata do mercado.
O economista diz que já apresentou as ideias a Lula e à equipe do governo sem que houvesse avanço, e reconhece que o ambiente institucional atual pode não permitir uma aplicação imediata. A reunião em Brasília não significa adoção da proposta. A política de juros continua sendo decidida pelo Copom, que tem autonomia legal.
Fontes: horadopovo.com.br, brazilstockguide.com, economicnewsbrasil.com.br.